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A Ética do Bom Ladrão


- Alô, quem tá falando?


- Assaltante.


- Que assaltante, que história é essa?


- O cara que tá roubando o banco aqui, pô!


Eu queria conversar contigo hoje sobre o caso estrepitoso da moça inglesa que teve um tumor no ovário. Ela namorava. O namorado lhe fecundou os óvulos, os congelou, só que eles acabaram o romance e ele não quis mais os futuros rebentos: era a última chance de a mulher gerar filhos, sonho sepultado pela Suprema Corte Britânica, que decidiu o caso em favor do ex-futuro pai arrependido. Nada mais infame do que prometer aquilo que não se pode cumprir.


Caso relevante, sem dúvida; mas nada pode ser mais relevante do que a sinceridade e honestidade de um bandido de bem. Eu podia encerrar por aqui meus devaneios, o que lhe pouparia tempo para a dedicação de outros afazeres mais prazerosos e mais intensos. Todavia, não sei que vírus sintático me infecta, que bactéria lexical corrói minhas células, que não consigo ouvir uma coisa dessas e ficar quieto, exatamente igual a você que leu e se manteve aí, no controle dos seus sentidos. Você, cidadã de bem, que não tem qualquer motivo para ter afeição por meliantes cruéis que se antecipam à civilidade e roubam e matam, há de dar indulto a este raro exemplar de malfeitor, ou, se não puder perdoar, ao menos (eu intercedo) confira a ele um pouco de compaixão – que é o mesmo que perdoar, só que é perdão com a grife cristã.


Com sinceridade, tudo se ajeita. O juiz que julgar este caso escasso na literatura criminal há de admirar o ato do criminoso; conscienciosamente, há de deixar de lado a frieza da lei, há de refletir em casa, num feriado, na companhia da sogra e da filha desta, convocará uma assembleia extraordinária entre os mais notórios larápios deste cemitério de ladrões chamado Brasil, e assim, após muita filosofia cadeieira impregnada na sua alma, há de proferir sua sentença fundamentada sem norma legal:


- Sr. Ladrão, concedo ao senhor todos os benefícios que a liberdade confere aos homens de bem, e dado seu caso inédito e toda a comoção popular, comuto sua pena; em vez de cadeia, dará lições de ética nas Casas Públicas de Brasília. Cumpra-se.


- Não senhor. Não quero. – dirá simplesmente o bom ladrão.


PS: Este caso aconteceu em São Paulo, quando um produtor de televisão telefonou para uma agência bancária.




Escrito por Alex Menezes, às 23h43.


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