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3 Eus e a Dúvida do Leitor



Outro dia um dos valentes leitores desta coluna me fez uma pergunta eita lá de difícil: como se escreve uma crônica, um artigo, de onde vêm as idéias, como e qual método utilizado, a resposta que entrego a ele, numa baixela, é esta: não faço a menor idéia.



Devem vir das entranhas da terra as idéias. Meu palpite é que as idéias são como a poeira do ar, estão por aí flutuando, quando esbarro nelas, elas entram em mim, nunca ao contrário.



Quando eu insistia em ser criança, e na minha casa se ouvia aquelas músicas boas do Roberto Carlos (creiam, jovens leitores, ele fazia músicas boas) e era aquele sucesso estrondoso eu ficava com ciúmes não do cantor e seu êxito mas de não ter encontrado aquela música antes dele, porque imaginava que a música já existia nalgum lugar, sei lá qual, e não carecesse de ser composta, chorada, sofrida, já viesse ao mundo pronta e acabada, como os sonhos e as catástrofes.



Mas cresci. E ainda acho que as idéias são como, por exemplo, a origem do Nilo, misteriosa. Mas o que mais importa ao mundo é a sua existência e não sua nascitura. Não raro o cronista sofre um castigo do Reino das Idéias. Elas somem do bolso da cabeça, feito um salário curto. O cronista merece ser castigado. Há benesse no castigo. Para Maquiavel o castigo tinha de ser feito duma vez, para ser esquecido, e o bem aos poucos, para ser lembrado sempre. Para Dostoieviski, meu companheiro num quarto de pensão, o pior do castigo era a espera. Já Machado, a quem devo algo, (é uma delicia dever para quem já morreu) o castigo devia ser como uma reconciliação entre inimigos políticos: eterna. Deus quando quer ser Dante, é mais do que Dante.



Donde será que veio essa interrupção ao tema de hoje? Já sei. Antes de começar o parágrafo anterior fui à cozinha procurar comida e esbarrei num pó de idéia. Voltei de lá desolado, encontrar comida aqui é difícil; mais difícil do que encontrar um moto-boy que se aposente por tempo de serviço.



Criei um método pouquissimamente original para avaliar a qualidade do que escrevo: dois Alexs. Sobe linha desce linha, eles se comunicam entre si: “Alex, o texto de hoje tá fraco, fraco e fraco” no que o outro responde, arengueiro: “Não se avexe não, faça outro forte, forte e mais forte”. E fica essa arenga de eu comigo mesmo, um de mim mandando-me ao diabo pela falta de imaginação o outro eu elogiando, namorado do texto, pedindo para ler, reler e tresler, um Narciso que pede bis, tris; o outro, o Alex ruim, se diverte quando é uma porcaria de texto e diz pro Alex bonzinho: “Vai, continua escrevendo essa droga, apavora os leitores que tiveram um dia ruim e ainda têm de aturar essa zurrapa (“vinho ruim”, traduz o Alex bonzinho), vai continua escrevendo, tem um leitor que tem o nariz torto e não gosto de narizes tortos, vai, faz um texto horroroso, até o nariz dele virar um ponto de interrogação”.



Essa guerra interna dura menos que um segundo, um terceiro eu policia os dois para não baixarem o nível; guerrear pode, se maldizerem jamais. Acabadas as idéias, o Alex bonzinho, diz para você:



- Liguem não. Amanhã o texto vai estar assim, supimpa!





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