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2007 Erros e a Esperança



2007 chegou. Impetuoso. Destemido. Cheio de si. Insolente como um herdeiro universal e ao cabo findará melancólico como todos os herdeiros deste mundo. Gosto mesmo das previsões feitas pelos místicos. Janto, o fabuloso cavalo de Aquiles, como o asno de Balaão, tinha o dom de falar; de falar e não só falar como também o de fazer previsões: previu a morte do herói troiano. Não dou uma gota de mérito para este cavalo charlatão; prever a morte de um guerreiro que leva a vida com o fio da espada a roçar-lhe as entranhas é coisa que eu e tu que não somos prognosticadores conseguem fazer.



É como dizer que os políticos, por descuido, irão esvaziar os nossos cofres cujas chaves deles são. Eu consigo prever que os 27 governadores eleitos que assumiram o poder neste 1º de janeiro, se cooperarem com as investigações, serão enjaulados alfim dos seus mandatos. Ficarei rico fazendo previsões previsíveis.



Tenho gosto, todavia, por novidades retrogradas como o enforcamento do bagdali, nascido em Tikriti, Satã Hussein. Você que não se deixou levar por essa onda findianista, viu pela tevê os verdugos (verdugo é mais suave do que “carrasco” o que me diz?) enlaçarem o iraquiano com uma corda para enforcar elefantes e, detalhe curioso porque interessante, colocaram delicadamente um lenço negro em volta do seu pescoço dele: seria para não doer? Que nobre sentimento de humanidade desses carrascos!



Quero um carrasco assim para mim. Não gosto dos carrascos cariocas que queimam as pessoas vivas dentro dos ônibus sem quaisquer gestos de carinhos. Chegam e já vão logo queimando, sem afeto algum. Vai que é porque não havia transmissão ao vivo como o Mrs. Hussein. Rogo para que as tevês transmitam os novos massacres que hão de vir. Confere humanidade ao ato. O facínora que atear fogo no próximo ônibus há de perguntar aos passageiros se ali se encontra alguém que seja alérgico a fumaça de querosene pois ele providenciará gasolina, acetona ou isocianato de metila: a combustão a gosto do freguês. Tudo pelo social.



Acabei de ler um poema do Sr. Drummond intitulado TEMPO em que ele fala que “Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança”. Ai ai. Ia escrever essas coisas de esperança, de renovação, de feliz tudo novo a todos, mas sou incapaz. Inapto mesmo. Como aquele prognata que não consegue esconder a longa maxila, não consigo esconder minha apatia; não tenho o dom de escrever luz no breu das trevas. Elas me amedam e atormentam me calam, maltratam, enfim.



Se essa coisa inescapável e, para alguns, efêmera, chamada esperança realmente existir (ela deve existir sim, para aqueles que ainda não foram vítimas da selvageria humana “O homem é o lobo do homem”, ver Hobbes) ela deve ser uma coisa gasosa, imaterial como os Ets, ou fugidia, como uma namorada que desama o namorado por ela apaixonado e assim, o que parece ser uma dose homeopática de pessimismo se transmuta em... pessimismo mesmo; do bom e do barato.



Os 1000 e muitos judeus poloneses salvos do extermínio por Oskar Shindler deviam ter alguma espécie de esperança embutida nos seus corações e mentes, mas era uma esperança com rosto e sobrenome, não aquela abstrata a que estamos acostumados a esperar e não raro, desesperar. Vão temores!



Entretanto, tenho um antídoto contra essa antifonia temporã: criar meu próprio universo de cartas marcadas sem trabalho escravo onde haverá uma lei que obrigará a todos serem felizes (plágio a João e Maria) com acesso negado à monotonia e sem o advento do Mal que, como se diz, é estúpido por natureza; esse universo particular será isento de todo e qualquer tipo de tédio que, tenho certeza, é o causador oculto de toda a minha e vossa desesperança. Escapismo, desilusão? Pode ser; antes a alienação artificial ao suicídio ocular da realidade insana desse mundo ensandecido.



“Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo/ prefiro acreditar no mundo do meu jeito/ e você estava esperando voar/ mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?” – Eu Era Um Lobisomem Juvenil – Russo.





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