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É Proibido Chover, diz o anúncio que eu li...

06/01/2007 Não é raro o dia em que o cronista se deixa abater pela falta de um tema. Não obstante, tal fenômeno só ocorre com cronistas que habitam as estepes suecas, vivam na Suíça, Noruega, esses lugares bonzinhos e monocárdicos. Como, vivendo num país jovem e cálido como o Brasil, alguém que se dê ao luxo de escrever, pode ficar órfão de um tema quente e açulado? Impossível. A cidade paulista de Aparecida do Norte, maior santuário católico dessas estepes, é repleta de peculiaridades; pescadores pescam santas no leito dos rios em vez de peixes; por natural, milagres ocorrem em todas as cidades; meu gosto é pelo raro: o prefeito da cidade, o IImo. Sr. José Luis Rodrigues para provar seu exotismo tropical usa a singela alcunha política de Zé Louquinho. O que fez Rodrigues para registrar seu nome no anuário, digo, anedotário nacional? Enviou à Câmara de Vereadores um projeto de lei em que proíbe “enchentes e outras ocorrências climáticas no município”. Proibir as chuvas e o mau tempo. Onde será que andam os deuses... Sartre, o grande pensador existencialista francês, desconfiava que este mundo podia ser, na verdade, o inferno de outro mundo. Pode ser. Se correto estiver o pensamento do pensador, o Brasil é o tablado onde são ensaiadas as comédias infernais. O inferno é a repartição diletante da existência humana. Existem leitores ingênuos e obtusos; como sei que você não pertence a nenhuma dessas classes de leitores displicentes, deve crer que Zé Louquinho não é iniciante na arte da empulhação política: ele já tentou proibir o uso de minissaias e bermudas durante a quaresma, construiu um túmulo com o símbolo do Corinthians e colocou pit bulls e rotweillers para vigiar o cemitério da cidade, onde está o santuário de Aparecida. Eu cri na seriedade e candura da proposta do alcaide, difícil será fazê-lo crer que não é ironia da minha parte. Salomão pediu a Deus sabedoria; eu peço piedade e compreensão. Como o Criador teima em atender aos meus pedidos, me apiedo do Sr. Louquinho, sei que esse clima, esse sol nacional, causa certos impactos neurais na gente. Compreenderei quando ele, por decreto, achar de proibir as pessoas de morrerem como fez um comparsa seu de Biritiba-Mirim: Folha On Line 08/12/2005 O cerca de 28 mil moradores de Biritiba-Mirim (São Paulo) podem ser "proibidos de morrer", como pretende um projeto enviado pela prefeitura à Câmara. A proposta prevê alertas e punições aos "desobedientes": um dos artigos avisa que "os munícipes deverão cuidar da saúde para não falecer" e outro adverte que "os infratores responderão pelos seus atos". O texto será analisado pela Casa na semana que vem. Adeus mundo cruel. Escrito por Alex Menezes às 22h28

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